sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Gnocchi à mesa: bendito o pai que te pariu - Cleberson Dias




Gnocchi à mesa: bendito o pai que te pariu

(por Cleberson Dias)



Amassava a massa de nhoque com as mãos nuas. Empregava ali muito carinho. Adorava cozinhar para os outros. Não sabia ao certo de onde vinha o dom para a culinária. Pesquisava o passado e ocorria em sua mente que tudo talvez tenha começado de forma singela com o nhoque que algumas vezes viu seu pai preparando e enrolando na mesa com farinha e cortando em pedaços bem pequenos. Sim, pipas, raias e carrinho de rolimã: tudo isso aprendeu com seu pai a fazer. Nutria, às vezes (e bem às vezes), certo carinho pelo passado. Nada de nostalgia. Era o homem do hoje.

Quando ele era pobre, lembrava-se de certa vez quando não teve o que comer e um anjo (depois descobriu que se tratava do Grupo Paroquial Vicentino de ajuda aos necessitados) apareceu com uma cesta-básica. Sua mãe correu até o fogão e preparou, com amor, um arroz. Uma vez um anjo trouxe a ele macarrão e almôndegas. Eram tempos difíceis, mas ele era amigo do céu.

Temperava agora a massa com as lágrimas. Não eram de raiva, nem de amargura ou ódio. Mas eram lágrimas de superação. Não tinha saudades dos períodos de necessidade. Analisando profundamente, foi uma criança feliz.

Mas a imagem que ficava agora era aquela, onde ele, menino, corria do fogão à mesa, com um prato na mão, levando cada pedacinho da massa de nhoque feita pelo seu pai, para que sua mãe a mergulhasse na panela e, num passe de mágica, aquela batata amassada com ovos e leite e farinha emergisse na panela de água quente e, dali, para a panela de molho de tomate com carne moída.

Tinha saudades daquele pai que, embora abortasse qualquer sinal de evolução familiar ou a buscasse por caminhos equivocados, ensinou a ele a fazer pipas, raias e carrinho de rolimã e nhoque.

Eram raros esses momentos de alegria e unidade familiar, mas eram mágicos. Ahh...  Se pudesse voltar no tempo...

Assustou-se com a água fervendo que respingou em sua mão. Já era quase meio-dia. As visitas estavam por chegar.

A Velha - Cleberson Dias


A Velha
(por Cleberson Dias)




Velha e cansada, não suportava mais a curta variação entre os cadernos de tricô, cujos pontos já lhes eram todos familiares, e os escritos de Simone de Beauvoir. Caquética e em cacos, há muito fora abandonada pela beleza e pelo tempo. Não tinha mais vontade de se olhar no espelho. Não comprava aqueles produtos que normalmente as mulheres usam para mascarar a idade ou para parecerem mais bonitas do que de fato são. Não tinha vaidades. Não sabia se de fato seu ventre era seco ou se a falta de marido a impedira de ter filhos. Disfarçava a sua amargura e acidez dando balas às crianças de sua rua, mas odiava ser chamada de “vó”. Será que aquelas malditas crianças não percebiam que ela não tinha filhos, muito menos netos? Quanto à oração do Santo Rosário, há muito não rezava “Ave Maria”, porque era insuportável aos seus ouvidos a expressão “bendito é o fruto do vosso ventre”. Não experimentou as dores do parto. Não sentiria o medo pelo qual todas as mães passam de perder um filho para sempre. Ela tinha, mesmo assim, uma certeza: a infância é o reino onde ninguém morre. Outrossim, conservava alguma fé.

Era a mais nova de sete filhos: quatro homens e três mulheres. Fora educada desde pequena para que compreendesse que sua obrigação seria cuidar de seus pais, quando envelhecessem. Sua sina seria a devoção. Assim, desde pequena, fora forçada a optar por outros e não por si mesma. E, agora, na velhice, o gosto por Simone de Beauvoir era, na verdade, uma tentativa de compreender a miséria e humilhação imposta pela condição de velha, cruz de mármore. Simone de Beauvoir disse que, quando se respeita alguém, não queremos forçar a sua alma sem o seu consentimento.

Vagava pela casa na qual se dedicara por longos anos a cuidar de seus pais. Em cada cômodo, uma recordação, uma história. Na varanda simples, no fundo da casa, voltada para o quintal e o mato alto, lembrou do seus sonhos que se dirigiram, no passado, para a Universidade: seria doutora. Não sabia bem em que. Mas sonhava com pessoas a chamando por um título. Um título que indicasse alguma importância. Não queria para si o título de “vó”. Mas, agora, só esse lhe restara. Tornara-se apenas uma normalista. A faculdade era demasiadamente cara e distante dos olhos vigilantes da mãe, verdadeiro cinto de castidade. Agora já não havia mais tempo nem desejo de ser feliz. Não acreditava mais na felicidade. Desejara até então e ardentemente ser a garota que comunga na missa da manhã, com certezas serenas. Mas compreendera, assim como Simone, que o ato de fé é a ação mais desesperada que existe. Queria, na verdade, em seu desespero, conservar alguma lucidez, sem mentir para si mesma.

Na sala, todas as coisas em seus devidos lugares, como sempre ordenara sua mãe. Sem sinal de poeira. Uma vida impregnada de regularidade e de constante inverno, de linguagem oral e escrita rebuscada, labiríntica, barroca: apenas isso percebiam os que nela fitavam os olhos. Mas eles não a conheciam profundamente. Eram leitores de leituras levianas então. Eram homens e mulheres de pífio vocabulário e demasiadamente humano, numa tentativa de fuga de si mesmos e do mundo que os abarca. Sentiam certo prazer na ignorância e na apreciação da vida e coisas alheias.

No quarto de seus pais, agora vazio de gente, o velho baú, também vazio, poderia muito bem ser usado para guardar livros e cadernos de quando ela ainda lecionava, se não tivesse ateado tudo ao fogo. Ela era agora um baú: fechada em si, encerrava no âmago os desejos carnais mais voluptuosos, aqueles aos quais todos os homens se dão ao luxo quando não são observados. A castidade que prometera à mãe, diante da imagem de Santa Inês, na capela simples que frequentara desde pequena, não durou mais que três turmas alfabetizadas por sua cartilha. Isso a colocava em luto constante e, não raramente, custavam a ela muitas lágrimas e noites de sono. Mas há lágrimas que não fazem mal e lutos que precisam ser vividos com intensidade e em sua totalidade, pois são resultado de experiências que muitas vezes nos marcam e deixam feridas que nem o tempo consegue suturar, porque são profundas demais. Aquela senhora que dava gentilmente balas às crianças não chorava por uma promessa feita à mãe e que não fora integralmente cumprida: chorava de saudade daquele amor ao qual ofertou a sua virtude. Chorava porque nunca teria as bênçãos de sua mãe para se unir ao experiente diretor que a recebeu em sua escola e a ela deu todo o suporte que uma professora recém-formada espera receber. Agora, idos os setenta e outros anos de idade, tocava seu corpo enrugado, deslizava o dedo por sobre sua vergonha e se martirizava pelo tempo perdido e pelo amor não vivido. Essa velha idiota dizia a si mesma que o futuro haveria de contar uma história diferente a seu respeito. Mas agora era tarde. Com aquela sufragista, esposa de Sartre, aprendera que renunciar ao amor parecia ser algo tão insensato como desinteressar-se da saúde, porque todos acreditam na eternidade. Não havia sido um grande amor. Apenas um amor. Talvez amasse apenas as memórias que, com ele, vivera naquela escola. Amar era mais difícil do que ela pensara, pois compreende muitas inquietações e renúncias, pequenas tristezas que surgem aqui e acolá.

Em seu quarto, olhava para a sua cama de solteira. Arrependia-se por não ter se dado a todos em prazeres carnais, em volúpia. Martirizava-se agora porque não se batizara na boemia e por não ter corrido riscos. Devia ter saído com homens casados e destruído matrimônios, quando a sua beleza ainda era um préstimo do tempo. Tinha sede de carne nova, quase intocada, o banquete recém-posto. Pagaria agora por bebida, comida e sexo. Mas era agora seca no meio das suas pernas, caatinga em tempos de estiagem, e não haveria dinheiro que fizesse um homem, por melhor ator que fosse, desejá-la. Mas porque, então, ela se sentia tão suja e insana quando pensava nessas coisas? Sentia horror à alma, sentia-se pecadora. Merecedora de experimentar o enxofre do inferno. Já não se enganava mais com as tentativas de ludibriar o tempo. Agora era o tempo de recordar e tentar acreditar nas palavras de Paulo, Apóstolo, a Tito (2: 2-4): “As mulheres idosas, semelhantemente, que sejam sérias no seu viver, como convém a santas, não caluniadoras, não dadas a muito vinho, mestras no bem; para que ensinem as mulheres novas a serem prudentes, a amarem seus maridos, a amarem seus filhos, a serem moderadas, castas, boas donas de casa, sujeitas a seus maridos, a fim de que a palavra de Deus não seja blasfemada.”

Não queria definições para si. Nunca se sujeitara a definições. Com Simone de Beauvoir entendera que a liberdade é a substância humana. Foi à cozinha. Sentou-se à margem da própria vida. Sabia muito bem que aquele que se senta à margem da própria vida é incapaz de recriá-la. Bateu um bolo e assumiu toda a culpa. Regou-o com lágrimas e vida sem vida e dor e sofrimento, abnegação e arrependimento. Sua vida não era de fato mais satisfatória que a ficção. Achava a vida longa demais. Seguidora de Simone de Beauvoir, entendera que negar a vida é também uma forma de existir e, se escolheu apenas existir, escolheu não ser Deus. Se viver é apenas envelhecer e nada além disso, desejava uma morte sem propósito. Tinha nas mãos não um livro de receitas, mas um pedaço de papel de pão, no qual copiara, para não se esquecer, uma citação de Simone de Beauvoir que lhe agradara outrora: “Tudo o que podemos dizer sobre nossas vidas, segundo me parece, não passa de palavras. Mas, às vezes, a palavra representa um modo mais acertado de se calar do que o silêncio.”

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Dama da Noite


Para Márcia Denser
"E sonho esse sonho que se estende
em rua, em rua em rua
em vão."
(Lucia Villares: Papos de Anjo)


 


Como se eu estivesse por fora do movimento da vida. A vida rolando por aí feito roda-gigante, com todo mundo dentro, e eu aqui parada, pateta, sentada no bar. Sem fazer nada, como se tivesse desaprendido a linguagem dos outros. A linguagem que eles usam para se comunicar quando rodam assim e assim por diante nessa roda-gigante. Você tem um passe para a roda-gigante, uma senha, um código, sei lá. Você fala qualquer coisa tipo bá, por exemplo, então o cara deixa você entrar, sentar e rodar junto com os outros. Mas eu fico sempre do lado de fora. Aqui parada, sem saber a palavra certa, sem conseguir adivinhar. Olhando de fora, a cara cheia, louca de vontade de estar lá, rodando junto com eles nessa roda idiota - tá me entendendo, garotão?
Nada, você não entende nada. Dama da noite. todos me chamam e nem sabem que durmo o dia inteiro. Não suporto: luz, também nunca tenho nada pra fazer - o quê? Umas rendas aí. É, macetes. Não dou detalhe, adianta insistir. Mutreta, trambique, muamba. Já falei: não adianta insistir, boy . Aprendi que, se eu der detalhe, você vai sacar que tenho grana e se eu tenho grana você vai querer foder comigo só porque eu tenho grana. E acontece que eu ainda sou babaca, pateta e ridícula o suficiente para estar procurando O verdadeiro amor. Pára de rir, senão te jogo já este copo na cara. Pago o copo, a bebida. Pago o estrago e até o bar, se ficar a fim de quebrar tudo. Se eu tô tesuda e você anda duro e eu precisar de cacete, compro o teu, pago o teu. Quanto custa? Me diz que eu pago. Pago bebida, comida, dormida. E pago foda também, se for preciso.

Pego, claro que eu pego. Pego sim, pego depois. É grande? Gosto de grande, bem grosso. Agora não. Agora quercì falar na roda. Essa roda, você não vê, garotão? Está por aí. rodando aqui mesmo. Olha em volta, cara. Bem do teu lado. Naquela mina ali, de preto, a de cabelo arrepiadinho. Tá bom, eu sei: pelo menos dois terços do bar veste preto e tem cabelo arrepiadinho, inclusive nós. Sabe que, se há uns dei anos eu pensasse em mim agora aqui sentada com você, eu não ia acreditar? Preto absorve vibração negativa, eu pensava. O contrário de branco, branco reflete. Mas acho que essa moçada tá mais a fim mesmo é de absorver, chupar até o fundo do mal - hein? Depois, até posso. Tem problema, não. Mas não é disso que estou falando agora, meu bem.

Você não gosta? Ah, não me diga, garotinho. Mas se eu pago a bebida, eu digo o que eu quiser, entendeu? Eu digo meu-bem assim desse jeito, do jeito que eu bem entender. Digo e repito: meu-bem-meu-bem-meu-bem. Pego no seu queixo a hora que eu quiser também, enquanto digo e repito e redigo meu-bem-meu-bem. Queixo furadinho, hein? Já observei que homem de queixo furadinho gosta mesmo é de dar o rabo. Você já deu o seu? Pelo amor de Deus, não me venha com aquela história tipo sabe, uma noite, na casa de um pessoal em Boiçucanga, tive que dormir na mesma cama com um carinha que.

Todo machinho da sua idade tem loucura por dar o rabo, meu bem. Ascendente Câncer, eu sei: cara de lua, bunda gordinha e cu aceso. Não é vergonha nenhuma: tá nos astros, boy. Ou então é veado mesmo, e tudo bem.

Levanta não, te pago outra vodca, quer? Só pra deixar eu falar mais na roda. Você é muito garoto, não entende dessas coisas. Deixa a vida te lavrar a cara, antes, então a gente. Bicho, esquisito: eu ia dizer alma, sabia? Quer que eu diga? Tá bom, se você faz tanta questão, posso dizer. Será que ainda consigo, como é que era mesmo? Assim: deixa a vida te lavrar a alma, antes, então a gente conversa. Deixa você passar dos trinta, trinta e cinco, ir chegando nos quarenta e não casar e nem ter esses monstros que eles chamam de filhos, casa própria nem porra nenhuma. Acordar no meio da tarde, de ressaca, olhar sua cara arrebentada no espelho. Sozinho em casa, sozinho na cidade, sozinho no mundo. Vai doer tanto, menino. Ai como eu queria tanto agora ter uma alma portuguesa para te aconchegar ao meu seio e te poupar essas futuras dores dilaceradas. Como queria tanto saber poder te avisar: vai pelo caminho da esquerda, boy, que pelo da direita tem lobo mau e solidão medonha.

A roda? Não sei se é você que escolhe, não. Olha bem pra mim - tenho cara de quem escolheu alguma coisa na vida? Quando dei por mim, todo mundo já tinha decorado a tal palavrinha-chave e tava a mil, seu lugarzinho seguro, rodando na roda. Menos eu, menos eu. Quem roda na roda fica contente. Quem não roda se fode. Que nem eu, você acha que eu pareço muito fodida? Um pouco eu sei que sim, mas fala a verdade: muito? Falso, eu tenho uns amigos, sim. Fodidos que nem eu. Prefiro não andar com eles, me fazem mal. Gente da minha idade, mesmo tipo de. Ia dizer problema, puro hábito: não tem problema. Você sabe, um saco. Que nem espelho: eu olho pra cara fodida deles e tá lá escrita escarrada a minha própria cara fodida também, igualzinha à cara deles. Alguns rodam na roda, mas rodam fodidamente. Não rodam que nem você. Você é tão inocente, tão idiotinha com essa camisinha Mr. Wonderful. Inocente porque nem sabe que é inocente. Nem eles, meus amigos fodidos, sabem que não são mais. Tem umas coisas que a gente vai deixando, vai deixando, vai deixando de ser e nem percebe. Quando viu, babau, já não é mais. Mocidade é isso aí, sabia? Sabe nada: você roda na roda também, quer uma prova? Todo esse pessoal da preto e cabelo arrepiadinho sorri pra você porque você é igual a eles. Se pintar uma festa, te dão um toque, mesmo sem te conhecer. Isso é rodar na roda, meu bem.


Pra mim, não. Nenhum sorriso. Cumplicidade zero. Eu não sou igual a eles, eles sabem disso. Dama da noite, eles falam, eu sei. Quando não falam coisa mais escrota, porque dama da noite é até bonito, eu acho. Aquela flor de cheiro enjoativo que só cheira de noite, sabe qual? Sabe porra: você nasceu dentro de um apartamento, vendo tevê.

Não sabe nada. fora essas coisas de vídeo, performance, high-tech, punk, dark. computador, heavy-metal e o caralho. Sabia que eu até vezenquando tenho mais pena de você e desses arrepiadinhos de preto do que de mim e daqueles meus amigos fodidos? A gente teve uma hora que parecia que ia dar certo. Ia dar, ia dar. sabe quando vai dar? Pra vocês, nem isso. A gente teve a ilusão, mas vocês chegaram depois que mataram a ilusão da gente.

Tava tudo morto quando você nasceu, boy, e eu já era puta velha. Então eu tenho pena. Acho que sou melhor, sei porque peguei a coisa viva. Tá bom, desculpa, gatinho. Melhor, melhor não. Eu tive mais sorte, foi isso? Eu cheguei antes. E até me pergunto se não é sorte também estar do lado de fora dessa roda besta que roda sem fim, sem mim. No fundo, tenho nojo dela - você?


Você não viu nada, você nem viu o amor. Que idade você tem, vinte? Tem cara de doze. Já nasceu de camisinha em punho, morrendo de medo de pegar Aids. Vírus que mata. neguinho, vírus do amor. Deu a bundinha, comeu cuzinho. pronto: paranóia total. Semana seguinte, nasce uma espinha na cara e salve-se quem puder: baixou Emílio Ribas. Caganeira, tosse seca, gânglios generalizados.


Õ boy, que grande merda fizeram com a tua cabecinha, hein? Você nem beija na boca sem morrer de cagaço. Transmite pela saliva, você leu em algum lugar. Você nem passa a mão em peito molhado sem ficar de cu na mão. Transmite pelo suor, você leu em algum lugar. Supondo que você lê, claro. Conta pra tia: você lê, meu bem? Nada, você não lê nada. Você vê pela tevê, eu sei. Mas na tevê também dá, o tempo todo: amor mata amor mata amor mata. Pega até de ficar do lado, beber do mesmo copo. Já pensou se eu tivesse? Eu, que já dei pra meia cidade e ainda por cima adoro veado.


Eu sou a dama da noite que vai te contaminar com seu perfume venenoso e mortal. Eu sou a flor carnívora e noturna que vai te entontecer e te arrastar para o fundo de seu jardim pestilento. Eu sou a dama maldita que, sem nenhuma piedade, vai te poluir com todos os líquidos, contaminar teu sangue com todos os vírus. Cuidado comigo: eu sou a dama que mata, boy. Já chupou buceta de mulher? Claro que não, eu sei: pode matar. Nem caralho de homem: pode matar. Já sentiu aquele cheiro molhado que as pessoas têm nas virilhas quando tiram a roupa? Está escrito na sua cara, tudo que você não viu nem fez está escrito nessa sua cara que já nasceu de máscara pregada. Você já nasceu proibido de tocar no corpo do outro. Punheta pode, eu sei, mas essa sede de outro corpo é que nos deixa loucos e vai matando a gente aos pouquinhos. Você não conhece esse gosto que é o gosto que faz com que a gente fique fora da roda que roda e roda e que se foda rodando sem parar, porque o rodar dela é o rodar de quem consegue fingir que não viu o que viu. O boy, esse mundo sujo todo pesando em cima de você, muito mais do que de mim e eu ainda nem comecei a falar na morte...

Já viu gente morta, boy? É feio, boy. A morte é muito feia, muito suja, muito triste. Queria eu tanto ser assim delicada e poderosa, para te conceder a vida eterna. Queria ser uma dama nobre e rica para te encerrar na torre do meu castelo e poupar você desse encontro inevitável com a morte. Cara a cara com ela, você já esteve? Eu, sim, tantas vezes. Eu sou curtida, meu bem. A gente lê na sua cara que nunca. Esse furinho de veado no queixo, esse olhinho verde me olhando assim que nem eu fosse a Isabella Rossellini levando porrada e gostando e pedindo eat me eat me, escrota e deslumbrante. Essa tontura que você está sentindo não é porre, não. É vertigem do pecado, meu bem, tontura do veneno. O que que você vai contar amanhã na escola, hein? Sim, porque vocé ainda deve ir à escola, de lancheira e tudo. Já sei: conheci uma mina meio coroa, porra-louca demais. Cretino, cretino, pobre anjo cretino do fim de todas as coisas. Esse caralhinho gostoso aí, escondido no meio das asas, é só isso que você tem por enquanto. Um caralhinho gostoso, sem marca nenhuma. Todo rosadinho. E burro. Porque nem brochar você deve ter brochado ainda. Acorda de pau duro, uma tábua, tem tesão por tudo, até por fechadura. Quantas por dia? Muito bem, parabéns: você tá na idade. Mas anota aí pro teu futuro cair na real: essa sede, ninguém mata. Sexo é na cabeça: você não consegue nunca. Sexo é só na imaginação. Você goza com aquilo que imagina que te dá o gozo, não com uma pessoa real, entendeu? Você goza sempre com o que tá na sua cabeça, não com quem tá na cama. Sexo é mentira, sexo é loucura, sexo é sozinho, boy.

Eu, cansei. Já não estou mais na idade. Quantos? Ah, você não vai acreditar, esquece. O que importa é que você entra por um ouvido meu e sai pelo outro, sabia? Você não fica. você não marca. Eu sei que fico em você, eu sei que marco você. Marco fundo. Eu sei que, daqui a um tempo, quando você estiver rodando na roda, vai lembrar que, uma noite. sentou ao lado de uma mina louca que te disse coisas, que te falou no sexo, na solidão, na morte. Feia, tão feia a morte, boy. A pessoa fica meio verde, sabe? Da cor quase assim desse molho de espinafre frio. Mais clarinho um pouco, mas isso nem é o pior. Tem uma coisa que já não está mais ali, isso é o mais triste. Você olha, olha e olha e o corpo fica assim que nem uma cadeira.

Uma mesa, um cinzeiro, um prato vazio. Uma coisa sem nada dentro. Que nem casca de amendoim jogada na areia, é assim que a gente fica quando morre, viu, boy? E você, já descobriu que um dia também vai morrer?

Dou, claro. Ficou nervosinho, quer cigarro? Mas nem fumar você fuma, o quê? Compreendo, compreendo sim, eu compreendo sempre, sou uma mulher muito compreensiva. Sou tão maravilhosamente compreensiva e tudo que, se levar você pra minha cama agora e amanhã de manhã você tiver me roubado toda a grana, não pense que vou achar você um filho da puta. Não é o máximo da compreensão? Eu vou achar que você tá na sua, um garotinho roubando uma mulher meio pirada, meio coroa, que mexeu com sua cabecinha de anjo cretino desse nojento fim de todas as coisas. Tá tudo bem, é assim que as coisas são: ca-pi-ta-lis-tas, em letras góticas de neon. Mulher pirada e meio coroa que nem eu tem mais é que ser roubada por um garotinho ïmbecil e tesudinho como você. Só pra deixar de ser burra caindo outra vez nessa armadilha de sexo.

Fissura, estou ficando tonta. Essa roda girando girando sem parar. Olha bem: quem roda nela? As mocinhas que querem casar, os mocinhos a fim de grana pra comprar um carro, os executivozinhos a fim de poder e dólares, os casais de saco cheio um do outro, mas segurando umas. Estar fora da roda é não segurar nenhuma, não querer nada. Feito eu: não seguro picas, não quero ninguém. Nem você. Quero não, boy. Se eu quiser, posso ter. Afinal, trata-se apenas de um cheque a menos no talão, mais barato que um par de sapatos. Mas eu quero mais é aquilo que não posso comprar. Nem é você que eu espero, já te falei. Aquele um vai entrar um dia talvez por essa mesma porta, sem avisar. Diferente dessa gente toda vestida de preto, com cabelo arrepiadinho. Se quiser eu piro, e imagino ele de capa de gabardine, chapéu molhado, barba de dois dias, cigarro no canto da boca, bem noir. Mas isso é filme, ele não. Ele é de um jeito que ainda não sei, porque nem vi. Vai olhar direto para mim. Ele vai sentar na minha mesa, me olhar no olho, pegar na minha mão, encostar seu joelho quente na minha coxa fria e dizer: vem comigo. É por ele que eu venho aqui, boy, quase toda noite. Não por você, por outros ecmo você. Pra ele, me guardo. Ria de mim, mas estou aqui parada, bêbada, pateta e ridícula, só porque no meio desse lixo todo procuro o verdadeiro amor. Cuidado, comigo: um dia encontro.

Só por ele, por esse que ainda não veio, te deixo essa grana agora, precisa troco não, pego a minha bolsa e dou a fora já. Está quase amanhecendo, boy. As damas da noite recolhem seu perfume com a luz do dia. Na sombra, sozinhas. envenenam a si próprias com loucas fantasias. Divida essa sua juventude estúpida com a gatinha ali do lado, meu bem. Eu vou embora sozinha. Eu tenho um sonho, eu tenho um destino, e se bater o carro e arrebentar a cara toda saindo daqui. continua tudo certo. Fora da roda, montada na minha loucura. Parada pateta ridícula porra-louca solitária venenosa. Pós-tudo, sabe como? Darkérrima, modernésima, puro simulacro.

Dá minha jaqueta, boy, que faz um puta frio lá fora e quando chega essa hora da noite eu me desencanto. Viro outra vez aquilo que sou todo dia, fechada sozinha perdida no meu quarto, longe da roda e de tudo: uma criança assustada.


Caio Fernando Abreu

Totonha


       Capim sabe ler? Escrever? Já viu cachorro letrado, científico? Já viu juízo de valor? Em quê? Não quero aprender, dispenso. Deixa pra gente que é moço. Gente que tem ainda vontade de doutorar. De falar bonito. De salvar vida de pobre. O pobre só precisa ser pobre. E mais nada precisa. Deixa eu, aqui no meu canto. Na boca do fogão é que fico. Tô bem.
       Já viu fogo ir atrás de sílaba? O governo me dê o dinheiro da feira. O dente o presidente. E o vale-doce e o vale-lingüiça. Quero ser bem ignorante. Aprender com o vento, ta me entendendo? Demente como um mosquito. Na bosta ali, da cabrita. Que ninguém respeita mais a bosta do que eu. A química.
       Tem coisa mais bonita? A geografia do rio mesmo seco, mesmo esculhambado? O risco da poeira? O pó da água? Hein? O que eu vou fazer com essa cartilha? Número?
Só para o prefeito dizer que valeu a pena o esforço? Tem esforço mais esforço que o meu esforço? Todo dia, há tanto tempo, nesse esquecimento. Acordando com o sol. Tem melhor bê-á-bá? Assoletrar se a chuva vem? Se não vem? Morrer, já sei. Comer, também. De vez em quando, ir atrás de preá, caruá. Roer osso de tatu. Adivinhar quando a coceira é só uma coceira, não uma doença. Tenha santa paciência!
       Será que eu preciso mesmo garranchear meu nome? Desenhar só pra mocinha aí ficar contente? Dona professora, que valia tem o meu nome numa folha de papel, me diga honestamente. Coisa mais sem vida é um nome assim, sem gente. Quem está atrás do nome não conta? No papel, sou menos ninguém do que aqui, no Vale do Jequitinhonha. Pelo menos aqui todo mundo me conhece. Grita, apelida. Vem me chamar de Totonha. Quase não mudo de roupa, quase não mudo de lugar. Sou sempre a mesma pessoa. Que voa.
       Para mim, a melhor sabedoria é olhar na cara da pessoa. No focinho de quem for. Não tenho medo de linguagem superior. Deus que me ensinou. Só quero que me deixem sozinha. Eu e minha língua, sim, que só passarinho entende, entende? Não preciso ler, moça. A mocinha que aprenda. O doutor. O presidente é que precisa saber o que assinou. Eu é que não vou baixar minha cabeça para escrever. Ah, não vou.

(FREIRE, Marcelino, In Contos Negreiros, pp79-81. Record, 2005)