quinta-feira, 7 de junho de 2012
sábado, 14 de abril de 2012
Nome
Me vês lindo porque me amas, creio eu.
Mas eu
não preciso ver-te, para amar-te.
Sem teu
rosto, tenho teu nome: senha do achamento e chamamento, do louvor e da súplica:
vocativo.
Teu nome
é doce. Em teus lábios sinto tanto sabor como quando pronuncio "doce em
caldas" e penso em abóbora, pêssego, figo e mamão verde.
Teu nome obriga
a língua a conhecer o céu antes de mergulhar na saliva...
(Geruza Zelnys&Cleberson Dias)
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012
Suicídio
... e depois de se permitir toda aquela gula, entregou-se à agua gelada do banho. Tudo era gostoso: a água gelada, o sono, a letargia e a liturgia. Sua cabeça girava ainda um tanto por causa do vinho. Ele descobriu que tinha paladar para vinho seco. Mas algo lhe chamou a atenção e, por um instante, voou no tempo e antecipou em pensamento aquele que será certeiramente o seu fatídico destino. Aquela navalha, plena de ferrugem, era tão familiar e amiga. Suicídio??? Era ainda covarde para isso. Adiou mais uma vez a morte. Ainda não era tempo. A navalha estava muito enferrujada. Se não morresse pelo sangue desvaído, seria de tétano. Tétano não estava em seus planos.
sábado, 7 de janeiro de 2012

"Vestem-se como putas para ir a festas (…) É a moda, que se há de fazer? E fumam baseados infindos, cheiram carreiras bem servidas, dançam punk rock, copiam modelinhos new wave, topam qualquer cantada. Trepam em pé, coito anal, coito oral, sexo grupal, masturbação sem culpa. Tão liberais, você não acha? Sou do tempo em que cabaço era documento."
(Caio Fernando Abreu)

"Assim: deixa a vida te lavrar a alma, antes, então a gente conversa. Deixa você passar dos trinta, trinta e cinco, ir chegando nos quarenta e não casar e nem ter esses monstros que eles chamam de filhos, casa própria nem porra nenhuma. Acordar no meio da tarde, de ressaca, olhar sua cara arrebentada no espelho. Sozinho em casa, sozinho na cidade, sozinho no mundo. Vai doer tanto, menino. Ai como eu queria tanto agora ter uma alma portuguesa para te aconchegar ao meu seio e te poupar essas futuras dores dilaceradas. Como queria tanto saber poder te avisar: vai pelo caminho da esquerda, boy, que pelo da direita tem lobo mau e solidão medonha."
(Caio Fernando Abreu - A dama da noite)
Ela havia decidido que no novo ano pouquíssimas coisas seriam diferentes em sua vida. Mas as pequenas mudanças, embora pequenas e poucas e raras, essas seriam fundamentais. Como meta, prometeu a si mesma que toda esquizofrenia, falsidade e covardia seriam tratadas como aquilo que de fato são: doenças. Sabia que uma maldita crise de consciência escondia por trás de si, veladamente, um maldito problema de comportamento. Assim, sua noite seria em vigilia, junto aos livros e palavras, esperando o novo ano, esperando a mudança.
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